quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Comendo a ração que vende - parte 11: dos móveis que eu catei, restaurei e pintei

O móvel mais sustentável é o que já existe, não existe madeira mais sustentável do que a que já foi extraída e pode ser reaproveitada. Nenhum programa de reflorestamento reproduz as condições de uma floresta nativa e qualquer programa de reflorestamento e manejo consome mais água do que reaproveitar o móvel velho que foi da vovó ou estava largado na calçada.

O reflorestamento de eucalipto é um mito, o eucalipto que não é sequer nativo do Brasil, consome pelo menos 30lts diários em seu processo de crescimento, não alimenta as espécies nativas da fauna brasileira e transforma áreas cultiváveis inicialmente em desertos verdes e a longo prazo, em vastas extensões desertificadas com solo erodido e lençóis freáticos desgastados.

Se pensou em móveis de madeira de demolição, esqueça!
Os móveis de madeira de demolição tradicionalmente à venda são um engodo para enganar os incautos. Raciocine comigo, se a madeira de demolição é obtida a partir da demolição de edificações antigas, o mundo deve ter vindo abaixo e nós não vimos tamanha a oferta desses móveis a preços populares. Pior, se a suposta madeira de demolição foi obtida a partir da demolição de uma casa, essa madeira só poderia estar em um lugar: nas vigas, ou nos telhados na pior das hipóteses.
E madeira de viga é pesada, é a coluna de sustentação da casa. Se o móvel levinho em estilo balinês (ou colonial mineiro repaginado) foi praticamente o preço do mdf, não é madeira de demolição. Haja casa antiga para demolir!

Outro erro comum é pintar tudo, vivemos essa fase do móvel colorido ao estilo dos cenários de teatro infantil. Cômodas roxas coexistindo pacificamente com cadeiras vermelho cereja e mesas para 10 pessoas em amarelo canário. Particularmente não gosto.
Cada década tem sua safra de cafonice, nos anos 80 foram os móveis laqueados à chinesa, nos 90 a onipresença da pátina, na primeira década do milênio (os anos 00), vimos tudo virar branco como na Provence e agora (os anos 10), o multicolorido de Alice no País das Maravilhas.
Não gosto nada, até porque esconde a beleza da madeira, seus veios e rajados naturais. Madeira de lei é caro porque é de boa qualidade, é madeira que cupim não rói como se diz. E bem tratado fica lindo. Atente que os grandes marceneiros e designers de madeira não chegam nem perto de um pincel de pátina. Ninguém mandaria laquear um móvel assinado ou em madeira de lei herdado de casa de fazenda porque, quando aquela moda passar, e vai passar como todas, para raspar e voltar ao original é quase impossível.
Se chegou numa loja que só vende móveis de demolição levinhos e tudo pintadinho, fique certo que nada ali é em madeira de boa qualidade, nem veio de demolição alguma, a pintura serve principalmente para esconder as falhas e a má qualidade da matéria prima. Observe que nessas lojas de decoração, qualquer rack turquesa (ou coral), apesar de imenso, é bem levinho e desmontável - sinal de madeira inferior.
O próprio consumo excessivo de tinta, um derivado de petróleo, é insustentável por definição. E as latas nem reciclam, o que gera outro problema.



Das coisas feitas em oficina de marcenaria





Está na moda fazer oficinas de marcenaria. Não sou de modismos, mas como gosto muito do assunto, fui em frente. Valeu a pena, em um dia de trabalho, faz-se uma banqueta charmosa como a da foto. Aqui em casa, por ser de uma madeira inferior como o pinus. foi pintada de amarelo, cor que também está na moda. Fosse em jacarandá ou vinhático e não virava banquinho nem levaria tinta, é claro. Quem der a sorte de pegar uma peça com a "falha" da foto, pode ficar só no verniz, vai ficar ainda mais bonito. Eu não dei essa sorte e fui de amarelão.





Escolhi o pessoal da Oficina SA por muitas vantagens, além do marido de uma conhecida ter feito e gostado, o galpão deles é a 5 minutos de caminhada da minha casa na Praça da Bandeira, à Travessa Soledade. Eu adorei o lugar, onde antes funcionava uma oficina mecânica, a roldana servia para içar o motor dos carros.




Essas janelas antigas lindas foram encontradas pelo pessoal da Oficina numa caçamba de lixo. Pegaram o que iria virar entulho no aterro sanitário, reformaram e virou a parede de vidro do jirau com iluminação e ventilação natural. Um charme.
A escada também foi toda feita por eles, detalhe do corrimão garimpado em feira de antiquariato.








Do que foi garimpado no Centro de Triagem da Comlurb

A companhia de limpeza pública carioca mantém um galpão na Praça da Bandeira, à Rua Teixeira Soares. Tudo o que eles acreditam ter um destino melhor do que o aterro sanitário, é posto à venda. Como passo sempre na porta, encontrei preciosidades em três visitas e lamento não ter levado outras coisas.

O que levei em períodos distintos:

A cadeira de design italiano, assinada Way Design. Estava um lixo, mas foi só lixar e pintar com tinta preta fosca na pistola. No pincel ficou uma porcaria, na pistola deu certo. Por R$20,00. Eu me refiro a ela como "a cadeira do Batman".



O florão de cabeceira de cama em madeira maciça. Amei essa peça de cara, estava bem na entrada do galpão. Era pesadíssima e um dos catadores trouxe em sua carroça por R$20,00. Não souberam dizer de qual madeira se tratava, pela minha pouca experiência parece cerejeira.
Fiquei pensando no que fazer com ela e os blogs de decoração foram a inspiração. Um zelador de prédio vizinho serrou as bases e laterais com seu tico tico por R$50,00. A cozinha do meu apto antigo ficou só serragem, mas deu para limpar em um dia. Depois, eu lixei as bordas e pintei tudo de azulão com rolete simples por cima do verniz mesmo. Eu queria deixar no verniz mais escuro, para ficar com cara de mogno, mas estava com muitas falhas e um galãozinho de acrílico azul royal com meio de branco e um quarto de verde folha (todos de resto das artimanhas que já andaram por aqui) deram conta. Tudo saiu a R$150,00










Já pintado na cozinha da casa anterior à atual, quando morei em cima de um brechó e antiquário no Maracanã. Eu gosto muito dessa peça como falsa cabeceira de cama, apoiado numa base de alvenaria. Já pendurei na parede e não achei tão bonito, escorado ficou mais interessante, mas não tenho mais foto, fica para a próxima.











A vitrolinha antiga de pé de palito sintonizando "ondas curtas, longas e tropicais". Essa foi a peça mais cara, os catadores cobraram R$200,00 na época. Falaram grosso comigo "A Globo entra aqui e paga até R$500,00 para colocar na minissérie". Como havia gostado muito e sabia ser mais caro por aí, levei. Foto de outro apartamento antigo, dessa vez com vista para o Colégio Militar, aqui na Tijuca. Depois, essa vitrolinha seria vendida no comércio informal da Rua do Lavradio, quando fui morar no Flamengo e precisei vender todos os meus móveis e comprar novos em função da disposição dos cômodos. Arrependo-me da decisão em relação a essa vitrolinha, é um móvel muito prático que não ocupa espaço algum e é multifuncional - serve até como base para impressora, além de tocar LP´s e sintonizar rádio. A antiga postagem sobre estantes sustentáveis a partir de reaproveitamento traz um exemplo lindo com uma vitrolinha dessas, projetada por um designer premiado: A casa sustentável é mais barata - parte 18 (estantes).






Das coisas herdadas:





A mesinha ao lado, hoje restaurada e pintada, foi presente de uma amiga, e apareceu aos pedaços na postagem antiga Comendo a ração que vende - parte 08: os móveis de Angela Freitas
Ainda não havia aparecido aqui reformada, o restauro foi feito pelo pessoal do Brechó do Casarão, aqui na Tijuca. Virou um porta talher-guardanapo em estilo provençal na minha cozinha atual.






















Das coisas que eu achei na rua

As bobinas e caixotes abaixo já estavam nas antigas postagens Comendo a ração que vende - parte 07: mesinha de cabeceira em bobina e Comendo a ração que vende - parte 01: mesinha de cabeceira em caixote de feira quando morei em cima desse brechó-antiquário no Maracanã.
Eu gosto muito de bobinas, tinha outras sem pintura em minha casa antiga, ambas imensas, mas como essas eram menores e estavam em pior estado, pintei e não me arrependi.
A bobina pequena e pintada é um móvel muito versátil, como pallets e caixotes, todos feitos da madeira mais ordinária possível, justamente por serem descartáveis. Pintar ajuda a manter essa madeira, que exposta à condições normais, apodreceria.











Mais informação:
O mito do reflorestamento de eucalipto
A casa sustentável é mais barata - parte 18 (estantes)
A casa sustentável é mais barata - parte 04 (ecotintas)
"Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível"
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
A casa sustentável é mais barata - parte 03 (material de demolição)
A casa sustentável é mais barata - parte 01 (básico de sobrevivência)
Comendo a ração que vende - parte 07: mesinha de cabeceira em bobina
A casa sustentável é mais barata - parte 19 (construções com portas e janelas)
Comendo a ração que vende - parte 01: mesinha de cabeceira em caixote de feira
Apresentando um catador da Amazônia ao restaurador de São Cristóvão e morando em cima de um antiquário e brechó no Maracanã