terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Fui à Saara e acabei saindo no jornal

Foi assim, estava um calor infernal na última semana do ano e, atrás de uma sombrinha japonesa (provavelmente Made in China) e um chapéu Panamá, resolvi ir à Saara encontrar mais barato.
Não ria de eu ter comprado sombrinha como as senhoras do século XIX, assim que saí da loja e abri a dita cuja, um rapaz negro sem camisa, que trabalha como carregador, parou na minha frente e ficou me encarando boquiaberto. Encarei de volta com cara de poucos amigos achando ser deboche e ele como quem vê um grande invento pela primeira vez:  "Onde você comprou? Foi caro?"
Respondi, é claro. Mas morri de pena ao ver que ele tem a mesma ocupação de seus antepassados escravos e no mesmo local, os sobrados coloniais do centro antigo do Rio. Trabalha seminu e sem direitos. Os negros continuam sendo a carne mais barata do mercado.
Minutos depois, no primeiro sinal da Senhor dos Passos, parada esperando abrir, a sombrinha cumpriu nova função social, a moça esperando ao meu lado, abrigou-se debaixo como fazemos com guarda chuvas em dias de temporal. E também perguntou onde encontrar, saiu apressada e zonza com o sol inclemente.

Eu gosto muito da Saara, confesso que não morro de amores pelas lojas de 1,99 e de ambulantes vendendo tanta quinquilharia plástica, mas adoro o comércio tradicional e o clima de mercado aberto. Então, vou sempre mais ou menos nos mesmos lugares e nem tomo conhecimento das bugigangas.
Dessa vez, encontrei jornalistas do Jornal O Dia que, ao me verem de chapéu de malandro, óculos escuros de aviador e sombrinha de gueixa comprando uma bolsa de palha praiana, pediram para me entrevistar para uma reportagem sobre como os cariocas estão contornando o calorão.


O trecho da reportagem de O Dia onde fui entrevistada: Venda de ventiladores chega a triplicar por causa do calor
A professora Carolina Daemon, de 41 anos, foi ao Saara para comprar chapéu de palha e sombrinha japonesa para proteger do sol. “Tenho até ido a praia à noite para evitar a exposição”, revela ela. 







Como essa postagem não se propõe a ser um guia de compras da Saara, até por ser um blog sobre sustentabilidade que acredita no consumo consciente e propõe que compremos cada vez menos, deixo aqui as minhas experiências desse dia específico, que foi ótimo como muitos outros.
Você pode encontrar na web muitos blogs e sites com guias de compras da Saara, blogueiras enlouquecidas com a lojinha que vende "o olho grego mais barato do Rio", "as mais variadas luminárias balinesas", "batinhas indianas pela metade do preço da praia", "artesanato peruano", etc. Mas sinceramente, eu espero que você não precise de nada disso, até porque nada vem de Bali, da Índia, da Grécia ou seja lá de onde for. 



O que eu bebo para matar a sede: água de coco direto na fruta e os refrescos de carrinhos populares. R$1,00, R$2,00 e R$3,00 cada copo dependendo do tamanho. Compro 3 copos de 200ml a um real em cada sabor para provar de tudo e bebo do mesmo copo para não gerar mais lixo. Já vi outros carrinhos mais exóticos, com limão, cupuaçu e graviola.





Onde eu fui: Centro de Arte Hélio Oiticica (Luis de Camões), Igreja do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé (Av. Passos), Rua do Verde (Rua da Carioca), Real Gabinete Português de Leitura  (Praça Tiradentes), Centro Carioca de Design (Praça Tiradentes), CRAB - Centro de Referência do Artesanato Brasileiro do Sebrae (Praça Tiradentes), Casa Pedro empório a granel (Regente Feijó), Grupo Kaká de artigos de camping e pesca (Gonçalves Ledo), Mercearia Estação Central de artigos orientais para casa (Regente Feijó), Mestre dos Filtros para talhas, moringas e antigos filtros de barro e cerâmica pintados a mão (Regente Feijó) e Império das Pelúcias para tudo que parece animal mas é sintético (Rua da Conceição).
Mas não deixe de entrar em todos os sebos, são muitos e todos bons. A Livraria e sebo Letra Viva (Luís de Camões) é uma preciosidade.







O que eu trouxe na bolsa:

Pão folha (um pão árabe mais molinho): vira pizza de sardinha sem queijo (com molho de tomate, cebola e azeite, pode levar azeitona e ovo cozido também), pizza Marguerita com muzzarela de búfala, azeite, orégano seco e muito manjericão fresco ou a sobremesa, wrap de banana com canela.











As bananas passa e castanhas de caju para carregar na bolsa compradas a granel em grande quantidade pelo preço do pacotinho do supermercado.





Bolsa de palha nova, chapéu Panamá novo e a famosa sombrinha "japonesa" em duas cores, azul (aberta) e verde (fechada dentro da bolsa)







Minha antiga bolsa de palha do Bazar Feliz (Rua Regente Feijó), que já apareceu aqui na postagem sobre as bobinas de cabo do Cais do Porto da minha casa antiga.





Você encontra lugares incríveis para comer em toda a Saara, para todos os bolsos e gostos. 
Os árabes são os mais recomendados e é uma especialidade local. São todos muito bons e tradicionais, com suas porções fartas e serviço impecável. 
A Charutaria Syria (Sr. dos Passos) é um ambiente lindo, centenário e que serve um ótimo café, boa pedida para depois do almoço mais pesado.
Geralmente, eu vou no único restaurante vegetariano de lá, o Reino Vegetal (Luís de Camões) e muita gente tem recomendado o Jóia Bebida Fast Food Chinês (Regente Feijó), uma lanchonete chinesa de raiz - o oposto das pastelarias comuns - serve lanches típicos como guiozas, omeletes chinesas e sobremesas em leite de soja aromatizado, tudo fresco e feito na hora. 
Dessa vez, por causa do calorão, fiquei no prato de verão, uma mania carioca. É um prato de frutas frescas com frios, geralmente uma fatia de presunto e outra de queijo, que pode ser prato ou Minas.
Não fotografei, a casa de sucos onde almocei estava entupida de gente, mas a foto abaixo do site de um bar de Copacabana mostra exatamente como vem. Muito prático, os estabelecimentos já deixam pronto na vitrine coberto por plástico filme e você pode comer de pé com a barriga no balcão gelado.





A Gentil Carioca, da foto que inicia a postagem, é uma galeria de artes localizada à Gonçalves Ledo. Não fui, estava fechada, mas a plaquinha na porta é uma graça.




Mais informação:
Boteco, o filme
Compras a granel
Guia Slow Food para cariocas
Comprando orgânico, local e justo na Tijuca
Por um Largo do Machado que nós merecemos
Mais restaurantes slow para a correria do Centro do Rio
A praga da reciclagem artesanal: não é sustentável e é horrível
Então a sobrinha tetraneta do Major Daemon foi puxar samba e trabalhar na Zona Portuária
Almoçando slow na correria do Centro: Vegetariano Metamorfose, Confeitaria Colombo e Bistrô Coccinelle

2 comentários:

MaFê Senger disse...

ahahahahahahahahhahhaaaaaaaaaa
também ando de sombrinha aqui... eu e as senhorinhas da roça.
o resto do povo tudo acha bonito perder o rumo com o sol estourando no coco.

como aqui fica com ar muito seco, ainda enrolo um lenço de algodão grande no pescoço, devidamente umidificado de água (e carrego um borrifador pra recarga ;) )

visualizou?
(risada certa)

BeijOMs

Carolina Daemon Oliveira Pereira disse...

Vc é muito chique. Deve ficar Isadora Duncan. Que fresquinho...